Fotografia e história no alto da Providência

Fotógrafo e morador da comunidade desde que nasceu, há 43 anos, Maurício Hora levou para o alto do Morro da Providência um centro cultural que combina oficinas de fotografia e aulas de reforço escolar. Após um período de portas fechadas, o espaço, a Casa Amarela – curiosamente com o mesmo nome do centro voltado à comunidade vizinha, do Morro do Pinto –­, reabre domingo com novo projeto: uma sala de leitura.

Maurício Hora já teve história contada em biografia de André Diniz, em 2011, que agora ganha versões em inglês e francês e o mercado internacional. O blog Porto Maravilha entrevistou o fotógrafo sobre seus próximos projetos e os do centro cultural.

Fotógrafo Maurício Hora mora na Providência desde que nasceu, há 43 anos. Região Portuária é maior inspiração ao seu trabalho. Foto da exposição “Morro da Favela”, sobre Providência

Fotógrafo Maurício Hora mora na Providência desde que nasceu, há 43 anos. Região Portuária é maior inspiração. Foto da exposição “Morro da Favela”, sobre Providência

A Casa Amarela é um espaço totalmente dedicado à comunidade da Providência, com atividades e oficinas para moradores. Quando e como surgiu a ideia de criar o projeto?

Em 2009, quando vi que estavam vendendo a casa, quis comprar na hora, mas não tinha dinheiro para isso. Só em 2010 consegui realizar esse sonho com ajuda do fotógrafo francês J.R., que se tornou amigo e parceiro de vários trabalhos. Ele comprou a casa. Mas, desde 1998, antes de a casa ser nossa sede, os projetos de oficinas de fotografia já aconteciam em outros lugares, como o Centro Cultural José Bonifácio. Mas era mais difícil. As pessoas não desciam o morro para participar. E como o imóvel fica dentro da comunidade, o envolvimento das pessoas é muito maior.

Atualmente, quais são os projetos desenvolvidos pelo centro cultural?

No fim do ano passado, recebemos a notícia de que o imóvel seria demolido para a construção do Teleférico da Providência. Por isso, paramos. Interrompemos as atividades no espaço. Tínhamos uma oficina de fotografia, mas temporariamente as aulas acontecem no espaço da Ação da Cidadania. A casa não será mais demolida e estamos retomando os projetos! Atualmente, temos aqui a minha exposição “Morro da Favela”, que já passou pela Casa França-Brasil. No próximo domingo, dia 17 de março, vamos inaugurar uma sala de leitura com várias atividades, como o Sarau de Poesias, aulas de reforço, além de uma biblioteca.

Você desenvolve o projeto “Porto de Cidadania” no espaço da Ação da Cidadania. Como o trabalho está relacionado à área?

Esse projeto começou há um ano e é patrocinado pela Secretaria Estadual de Cultura. O objetivo é documentar em fotos toda a transformação que a Região Portuária está passando. O curso mistura a prática da fotografia à história do Porto do Rio de Janeiro. Em todas as oficinas de fotografia que ministro, procuro transmitir para os alunos a foto como fonte e ferramenta de pesquisa para, posteriormente, o jovem se tornar um artista. Nesse projeto, temos 18 alunos em três aulas por semana.

Ano passado, foi lançada a biografia “Morro da Favela”, de André Diniz, sobre sua história na Providência. O que sentiu?

Ele conta a minha história, que acaba se entrelaçando à história do Morro da Providência. É um projeto que me deixa feliz e também me emociona. É mais uma história de um jovem da favela. Se procurarmos em diferentes comunidades, vamos encontrar muitas semelhantes. Neste ano, tive a grata surpresa, um presente, ao saber que o livro terá versões em inglês e francês. Será vendido em outros países.

Qual foi o seu primeiro contato com a fotografia?

Tive dois grandes contatos com a fotografia. Um deles por intermédio do meu tio, que era fotógrafo. Ele tinha um laboratório em casa. E eu achava fantástico. Mas eu nunca o vi revelar nada, pois diziam que não era coisa para criança. O segundo contato foi pelo Tião, outra referência aqui da Providência, um antigo retratista da comunidade. Ele mostrava fotos naquele antigo monóculo. Todos queriam ser fotografados por ele, é claro! Mas esse encanto ficou adormecido. Depois de alguns anos, quando eu era ourives e trabalhava com jóias, fui entregar um trabalho para um cliente e vi uma máquina fotográfica na mesa. Meu entusiasmo voltou! O cliente me ofereceu a máquina em troca dos meus serviços como ourives. Aceitei na hora! Tinha 13 anos. A partir daí, aprendi a fotografar sozinho, consultando livros. Fiz algumas especializações, mas nunca um curso aprofundado. Meu caminho foi muito mais longo, comparado ao de quem estudou.

Você já protagonizou diversas exposições fotográficas. Quais foram as mais especiais?

Em 1998, fiz a exposição “O olho da favela sobre a cidade”, no Centro Cultural José Bonifácio, sobre a Providência. Não tive muito recurso, mas o resultado foi incrível. Depois, expus “Mestre Sala dos Mares”, sobre João Cândido, líder negro da Revolta da Chibata. Também fiquei muito satisfeito. Destaco também duas exposições na França, uma com fotos do Morro da Providência, que ficou no Metrô da Estação de Luxemburgo; e outra, sobre a arquitetura do Rio de Janeiro, que rodou universidades e foi importante para o meu reconhecimento. E, para finalizar, cito “Morro da Favela”, que esteve em museus e agora está aqui, no topo do Morro da Providência.

Foto de Maurício Hora, da exposição “Morro da Favela”, sobre Providência

Foto de Maurício Hora, da exposição “Morro da Favela”, sobre Providência

Em 2010, você expôs “O Trabalhador Portuário”, no Armazém 18, que retratou a relação do morador da Providência com a Região Portuária e o próprio Porto. Como você pensa essa relação?

Essa exposição foi muito bacana, porque historicamente a Providência é uma comunidade portuária. Se formos analisar a favela do alto, notamos que todo lado que evoluiu foi o do Porto. Os trabalhadores precisavam enxergar seus navios de trabalho. Essa força histórica que a região guarda é muito importante para mim e para o meu trabalho.

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10 Comentários

Arquivado em Entrevistas, projetos

10 Respostas para “Fotografia e história no alto da Providência

  1. FAntástico o trabalho do Mauricio Hora

  2. Sílvia

    Nota 1000! Maurício Hora. Cria da Comunidade e orgulho para nós. Exemplo de vida para muitos jovens e um excelente profissional. Parabéns!!
    Sílvia Susewind

  3. Sylviah W. Rozemberg

    Maurício, a sua arte é a verdadeira alquimia! É o conjunto de todas as emoções sentidas por você e as captadas por sua lente. Somente alguém com a sua sensibilidade e história pode conseguir estes resultados e trazer para nós um pouco desta história e das lembranças que ela contem.
    Abraços da amiga,
    Sylviah W. Rozemberg

  4. Já que é um blog, poderia trazer mais fotos do Maurício. As fotos dele são sensacionais…

  5. Walter

    De Repente veio de fora pra dentro o Reconhecimento do teu trabalho,
    Finalmente chegou !!!
    Para-Béns essa é a versão correta do Parabéns que Você merece, por você ser Prata da Casa.
    Seu trabalho é Para o Bem e Grande Exemplo para nossa juventude !!!
    De seu contemporâneo.
    Walter M Susewind

  6. Pingback: O Novo Rio: o que ver e fazer « RioReal

  7. Pingback: Detalhes, não são apenas detalhes …. | Abraço Mundo

  8. Silvania Lucia Fonseca

    Esta foto vc é uma das que Maurício doou para Creche Tia Dora na época e em que eu era gestora. Não sei se continua ainda lá. Obrigada,amigo pelas suas valiosas contribuições!

  9. Mauricio voçe faz a diferença!!!!!!!!!!!!!!! Parabens

  10. marcinho

    mauricio vi sua matério na tv globo e fiquei feliz em ver seu trabalho. um abraço do amigo do surf de peito marcinho posto 2 quebra lage.

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